Não tenho dúvida de que o Brasil mudou e muito nos últimos 20 anos. Hoje temos uma democracia consolidada, porém entramos em um terreno imaginário, dadas as circunstâncias da atual conjuntura nacional. O nosso país necessita de reformas estruturais e, claro, não são essas medidas que levam às eleições.
Quem vota em políticos que têm como proposta a reforma da previdência? Se do lado da política monetária atingimos a maturidade, não se pode dizer o mesmo do lado fiscal. As contas do governo ainda estão inchadas e precisam ser compensadas por juros mais elevados.
Assim, a mudança previdenciária e a reforma fiscal são as grandes alavancas da economia para o futuro. Mas se o Brasil exibe problemas graves do lado da infraestrutura, com a falta de investimento governamental, sofre com o déficit da previdência e necessita de uma reforma fiscal, precisamos encontrar no universo dos candidatos quem se proponha a fazer essa reforma de verdade e não simplesmente aumentar o tamanho do Frankenstein.
Podemos analisar um político de diversas maneiras, mas sempre devem ser levadas em consideração sua postura ética, seu histórico político e suas realizações. Além disso, o político deve demonstrar competência, ter visão do ser público que é e ter cumprido com os compromissos que assumiu perante a sociedade. A democracia implica responsabilidade dos cidadãos com relação aos seus representantes, pois estes são por eles escolhidos. A oportunidade é dada, no entanto, a escolha deve ser feita com conhecimento de causa.
Sim, a democracia e o sonho de escolher um candidato "perfeito" ficam no mundo do imaginário. Desta forma, precisamos trabalhar no mundo da realidade e a realidade mostra que novos degraus foram alcançados. Não há sombra de dúvidas de que a economia brasileira avançou e este comportamento está relacionado à continuidade da política econômica, com a acertada adoção do regime de metas.
Ajudou ainda a conjuntura externa melhor e o crescimento dos nossos amigos chineses, que passaram a ser os grandes compradores de nossas commodities. Desta forma, o Brasil foi salvo da crise norte-americana. O Brasil é um grande exportador de commodities para o dragão chinês. Portanto, precisamos nos preocupar e estarmos preparados para um possível desaquecimento do mercado chinês e dos países emergentes.
De qualquer forma, passamos por um amadurecimento macroeconômico, político e institucional que permitiu ao Brasil estar menos vulnerável às crises internacionais como no passado. Assim, durante a crise financeira internacional iniciada ao final de 2008 e que se estendeu por 2009, o Brasil passou com poucos arranhões. O país mostrou a chamada resiliência, ou seja, a capacidade de que tudo volte ao mesmo lugar depois de um choque. Isso ocorreu por várias razões relacionadas à menor percepção de risco país e menores incertezas políticas.
Além de todas estas questões, mesmo que seja por falta de opção, os investidores internacionais passaram a olhar oportunidades novas por aqui. Novos players passaram a aportar capitais por aqui tanto por meio de investimento direto como por alocação de recursos no mercado de capitais. A previsão é de que a taxa de investimento irá surpreender em 2010, e registrar em torno de 20% de crescimento.
Simplificando, o vôo da galinha transformou-se em vôo do gavião. A economia brasileira segue crescendo em ritmo forte e o incremento previsto do PIB ficará acima de 6% em 2010. Esta é uma taxa de crescimento invejável a todos os governantes, principalmente os dos países desenvolvidos, marcados pela crise econômica mundial e que irão exibir baixíssimo crescimento. Em relação à média brasileira, também veremos que a tendência atual está muito distante do registrado nas últimas duas décadas: 2,52% ao ano.
Nosso crescimento está calcado no consumo doméstico, com o incremento da renda das famílias e aumento dos gastos do governo. Mas também há o lado positivo, com o maior investimento. A absorção doméstica, definida pelo consumo das famílias, somado aos investimentos e aos gastos do governo (demanda agregada, sem o setor externo) -, crescerá acima de 8,0%, conforme estimativas do mercado. Tal comportamento é, tipicamente, de países com infraestrutura sólida.
Tudo parece uma maravilha, mas o problema é: temos uma infraestrutura sólida?
Para crescer a uma taxa média acima de 5%, vamos nos deparar com aqueles "pequenos entraves" que enumeramos no início deste artigo. A solução destas pedras no sapato depende da boa vontade dos governantes. Há muitos novos passos a serem dados em termos de reformas estruturais e avanços na infraestrutura, na educação. Por último, o crescimento esbarra no custo Brasil, ou seja, naqueles fatores que afetam os custos de produção e de investimentos.
Como tudo é questão de se agarrar nas oportunidades, não podemos esquecer que, se o Brasil não fizer reformas na área fiscal e não melhorar as condições para desonerar os investimentos, não vamos ter condições de continuar crescendo em um ritmo mais acelerado como é desejado pela população. Para que isso aconteça, precisamos de políticos com "P" maiúsculo, que estejam pensando no futuro do país e tomem medidas menos eleitoreiras e mais estruturais.
*Clodoir Vieira é economista chefe da corretora Souza Barros e professor de pós-graduação no IPOG-Goiania e Mercado de capitais na FIB. O conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor. Esta seção não se responsabiliza por operações decididas a partir das informações e opiniões divulgadas neste artigo.
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