- “A Dilma é terrorista, sabia?"
- “Tá falando o que? O Serra acabou com o ensino em São Paulo.”
Esse é um dos exemplos de discussão encontrados à exaustão hoje em dia nas mesas de bar e principalmente na internet. O que isso influi na nossa evolução política além do fato de estarmos falando de política sem medo de irmos presos? Eu diria que nada. Diria ainda mais: seria maravilhoso se isso pudesse mudar.
Ao contrário do Cardoso, sou daquelas que lê manual, instruções etc (a ponto de ler instrução de extintor de incêndio com fogo em casa, acreditem!). Por isso, quando fui convidada para escrever aqui, fui olhar o vídeo e me encantei quando ouvi “política se discute sim”- porque pra mim não só se discute, mas há que se discuti-la com tolerância e elegância.
Há quem diga que não existem coincidências (Borges dizia que todo encontro casual é marcado e eu acredito) mas no momento em que olhava o vídeo e alguns posts, começou no Buzz do Inagaki uma discussão sobre tema que me é muito caro quando se fala de política: a capacidade (ou no caso, incapacidade) de pessoas esclarecidas discutirem política de forma civilizada – o que, acredito eu, seja o caminho mais seguro para evoluirmos na política e com isso, fazermos com que o nosso país melhore (Já falei que sou uma otimista e idealista incorrigível? Bom, tô avisando agora).
Como eu disse lá no tópico, entendo que por conta do silêncio imposto pela ditadura haja a necessidade por parte de alguns de vociferar impropérios contra o adversário eleitoral e seus eleitores; entendo que algumas pessoas sejam tão apaixonadas pelo tema que se inflamem perigosamente – mas com isso perdemos o melhor (a meu ver) do processo democrático, que é justamente a troca de ideias, de informação e com o produto deles, quais seja, a evolução, ainda que teórica.
Quanto a mim, sou um pouco diferente: meu objeto de paixão, de desejo, não é o meu candidato, meu partido (caso os tivesse, bem entendido); é pensar, descobrir novas formas de ver um assunto sobre o qual eu julgava ter opinião formada. Argumentar pra mim é uma dança entre duas pessoas, um jogo de sedução; e sedução não se ganha no grito, e sim na conversa, no jeito, no jogo de cintura (Alguém aí gosta de namorar homens ou mulheres das cavernas? Eu não. Preciso dizer mais?); nesse cenário, ganhar uma discussão para mim não é ter razão ou convencer o outro, mas enxergar um ponto antes não visto, é conseguir ver mais e além do que eu via antes. Posso contar? Uma discussão que termina desta forma me dá (quase) o mesmo prazer de um encontro que termina com um beijo bem dado, deu pra entender?

(que tal a imagem acima, com uma interação entre o preto e o branco ao invés de uma briga de Spy vs. Spy?)
Voltando ao ponto: claro, já é um avanço que estejamos discutindo política, ainda que de forma precária. Tenho convicção que os anos de ditadura criaram um hiato, uma geração de pessoas que por não terem crescido ouvindo falar do tema (este não era um tema do qual se falava, muito menos na frente de crianças, né) não tem experiência ou traquejo na discussão. Pensando bem, talvez seja exatamente por isso que a maioria ainda discuta como se estivesse numa guerra de torcidas organizadas: porque efetivamente ainda somos crianças no processo democrático...
Opa, peraí, mas já tem uns 20 anos que a ditadura acabou... Já somos grandinhos nesse processo – tivemos inclusive um impeachment nas primeiras eleições diretas e sobrevivemos. Tenho certeza que podemos mais!! Ao menos, eu quero acreditar que podemos, e que estamos caminhando para isso. Duvidam?
Hoje em dia há diversos instrumentos de controle de nossos políticos (o Marcelo Soares destacou vários deles) e eu acredito que com o tempo a população vá se acostumar a usá-los. A própria internet nos permite uma maior proximidade com o processo legislativo, seja através de controle de projetos que nos interessam no site da Câmara e do Senado, seja através das consultas públicas, como a que está ocorrendo agora com relação à Lei de Direitos Autorais, ou mesmo através dos vários blogs ou Twitter (eu fui uma das que acompanhou a discussão do “Ficha Limpa” pela internet e mudei minha visão por causa desse acompanhamento).
No entanto, as discussões ainda são muito incipientes, muito na base da “torcida organizada”. Como eu disse quando comecei o texto, até compreendo que seja assim; mas compreender não significa contentar-se. A gente pode mais, a gente tem capacidade pra mais e, como já disse, acredito que efetivamente só com esse tipo de evolução as discussões deixarão de ser ruído, e passarão a trazer análises mais sérias, mais embasadas - e isso certamente fortalece não só a consciência política das pessoas mas o processo democrático e o processo político como um todo.
Então, proponho aqui que comecemos um exercício de diálogo, um exercício de tolerância. Ao invés de ampliarmos à bilionésima potência a discussão do início do texto, que tal fazermos uma análise dos pontos positivos do candidato adversário e dos negativos do seu? Que tal dizer “eu gostei quando fulano fez isso” do candidato adversário ao mesmo tempo em que refletimos e dizemos “meu candidato aqui fez besteira?”
Pra que isso é importante? Ah, vai que um de nós um dia é eleito Presidente da República, né? Eu adoraria que o bom senso imperasse, mantendo os bons projetos da gestão passada adversária. Mas para isso é necessário que admitamos que eles têm coisas boas, é preciso que reconheçamos que política não é uma batalha do bem contra o mal, uma novela da Janete Clair (as pessoas ainda sabem quem é Janete Clair? Quem não souber substitua por Gilberto Braga, ta?).
Pode ser seu candidato, ou suas “aplicações” aqui na Bovap. Vamos lá? Então me contem: o que vocês criticam nos seus candidatos? E o que vêem de bom no candidato adversário?
Flavia Penido, advogada e blogueira.